Natal do Senhor de 2008
Missa do Dia

       Caríssimos irmãos e irmãs:
          
      O Quarto Evangelho não relata o nascimento do Senhor em Belém, nem menciona a Santa Virgem, seu recém nascido e seu esposo S. José, nem os pastores com suas ovelhas e nem o canto dos Anjos anunciando, aos homens de boa vontade, a glória de Deus. Entretanto, menciona o tema fundamental do Natal: a luz que brilhou nas trevas.
      O Salvador que nasceu-nos hoje é uma luz que irrompe nas trevas; “luz que vindo ao mundo ilumina todo homem”.
      O que S. João chama de “Verbo”, em grego pode também significar “sentido”. Podemos, portanto, traduzir a expressão “o Verbo se fez carne”  para “o Sentido se fez carne”.
      Contudo, esse “Sentido” não se limita tão somente a uma idéia. Trata-se de um “discurso” – uma exortação – cujos ouvintes somos nós. Não um discurso universal, mas um discurso dirigido a cada pessoa.
      A pessoa de Jesus Cristo é esse discurso vivo; essa exortação de Deus para cada um de nós.
      Em Cristo feito homem, Deus definitivamente trouxe à humanidade o sentido da vida e mostrou-nos como encontrá-lo. Por isso, Jesus dirá em seu ministério publico: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
      A vida, que encontra apenas em Cristo eu sentido, pertence tão somente a Deus, mas que dela usufruímos, existe para participarmos, juntamente com toda a criação, do hino de louvor ao Criador.
      A Igreja, assistida pelo Espírito Santo, compreendeu perfeitamente essa realidade do louvor a Deus expressando-o e concretizando-o em suas celebrações litúrgicas. A liturgia é ao mesmo tempo glorificação a Deus e santificação do homem.
      Essa glorificação ao Deus Criador de todas as coisas acontece num tempo determinado. Por isso, o sentido da vida está intimamente relacionado com o tempo que nos é oferecido. Essa realidade nós a chamamos de “peregrinação”.   
      Jesus Cristo é o sentido de nossa vida. A sua encarnação veio exatamente nos revelar que apenas Nele, por Ele e com Ele o homem, qual peregrino rumo à pátria celeste, encontra razão de viver, isto é, de peregrinar. E o homem peregrina de uma forma muito específica, já predita por Isaias: “como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação e diz a Sião: ‘Reina o teu Deus’
      Tudo o que o ser humano projeta, cria e faz enquanto existe, só tem sentido se é ressonância da pessoa do Cristo, que hoje se fez carne no seio da Virgem. Se isso não ocorre – a falta de sentido para existir – leva o homem à morte antecipada, mas não sepultado, lamentada, mas não amparado. Através do pecado, da tristeza e do vazio existencial, arrastam-se teimosamente tantos homens e mulheres em busca da luz aonde ela é apenas obra dos homens e não de Deus.
      O que constatamos debaixo de nossos olhos é exatamente a rejeição da luz; a pretensão humana de gerar luz própria, isto é, oferecer ao gênero humano um caminho, uma vida e uma verdade.
O pecado de nossos primeiros pais pode ser visto dessa forma: a pretensão foi ser como Deus: luz. Mas apenas Deus é luz, a criação só reflete a luz que recebe do Criador, não a gera.
      Hoje, queridos irmãos, Deus vem ao nosso encontro na pessoa de seu Filho. E para corrigir a história do pecado de Adão, o Filho de Maria experimentou em nossa carne, “não sendo cioso de sua condição divina”, o sentido pleno de ser natureza humana.
      Como escutamos do papa S. Leão Magno nas Vigílias desta noite passada, “não pode haver tristeza neste dia”, porque sabemos quem é o Sentido de nossa vida; sabemos como encontrar o sentido de nossa vida e assumindo-o – o sentido de nossa vida – não corremos o risco de tropeçar, pois Quem é o Sentido de tudo o que existe é também “uma Luz para os nossos passos” nesta peregrinação rumo à terra onde corre leite e mel e que hoje, de forma sacramental, paramos em Belém, para adorar Aquele que é a nossa verdade, nosso caminho, nossa vida e nosso maná descido dos céus.

      Amém.




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